Maconha na cicatrização de feridas: do Egito antigo à ciência
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Maconha na cicatrização de feridas: do Egito antigo à ciência

A Cannabis sativa vai em pomada para corte e queimadura desde os papiros egípcios. A ciência agora tenta entender por que funciona.

POR Redação CosechaLibre5 MIN DE LEITURA

Aplicada na pele, a Cannabis sativa pode ajudar na cicatrização de feridas: há estudos que apontam efeito anti-inflamatório, analgésico e antioxidante dos canabinoides e terpenos, e o próprio sistema endocanabinoide do corpo participa de todas as fases da cicatrização. O uso em cortes e queimaduras vem desde o Egito antigo, mas a maior parte da evidência moderna ainda é de estudos em animais. Uma planta milenar com longa história terapêutica, agora sob o olhar da ciência.

De arranhões leves a feridas mais sérias, a Cannabis sativa vem mostrando capacidade de acelerar a cura e ajudar a pele a se regenerar. Seus compostos ativos, como canabinoides e terpenos, têm propriedades anti-inflamatórias, analgésicas e antioxidantes que podem reduzir a inflamação, aliviar a dor e proteger a pele machucada do dano oxidativo.

Conforme a pesquisa avança sobre os mecanismos por trás desses efeitos, o uso da cannabis na medicina regenerativa e no cuidado de feridas ganha reconhecimento. A seguir, a gente olha mais de perto o potencial terapêutico dessa planta ancestral e o que está mudando no tratamento de feridas hoje.

Pote de creme de CBD

A história da cannabis na cicatrização de feridas

Desde o começo da civilização, a Cannabis sativa é valorizada pelas propriedades medicinais, principalmente no tratamento de feridas e lesões de pele. Ao longo da história, culturas muito diferentes reconheceram e aproveitaram esses benefícios.

No Egito antigo, textos médicos citam preparados de unguento de cannabis para tratar cortes, arranhões e queimaduras. Os papiros egípcios registram misturas de cannabis com gordura aplicadas como antissépticos para curar feridas. Na Grécia antiga, autores do século I a.C. contavam como a cannabis era usada para tratar feridas e úlceras em cavalos e para estancar sangramento nasal em humanos.

Mais tarde, herboristas como Ruellius, na França, e Tabernaemontanus, na Alemanha, recomendavam extratos de cannabis para feridas e queimaduras. Esse conhecimento passou de geração em geração até os séculos XVII e XVIII, quando nomes como Nicholas Culpeper, na Grã-Bretanha, e Thomas Short, na obra Medicina Britannica, destacaram as propriedades antissépticas do óleo e do creme de cannabis e sua eficácia contra queimaduras, picadas de inseto e úlceras.

Esse legado mostra a longa relação entre cannabis e cicatrização: uma tradição terapêutica que atravessou milênios e continua inspirando a pesquisa científica de hoje.

O que a pesquisa atual diz sobre cannabis e cicatrização

Na busca por soluções novas para melhorar a cicatrização, os cientistas estão investigando o potencial da cannabis e de seus derivados. Estudos recentes indicam que preparados de cannabis medicinal podem trazer benefícios importantes na redução da dor, da inflamação e do inchaço de cortes e queimaduras, além de ajudar na reparação do tecido da pele.

A evidência acumulada aponta o potencial da cannabis (sativa e indica) em vários aspectos da cicatrização. A planta tem propriedades analgésicas, anti-inflamatórias e antissépticas, o que faz dela uma candidata promissora para melhorar a recuperação de lesões de pele. E mais: o sistema endocanabinoide, que interage com os compostos ativos da cannabis, tem papel central no processo de cicatrização.

O sistema endocanabinoide fica bem ativo em todas as etapas da cicatrização. Depois de uma lesão, os níveis de anandamida, um endocanabinoide que funciona como neurotransmissor, aumentam nos tecidos afetados e geram efeito analgésico ao agir nos receptores CB₁ dos nervos periféricos.

O que dizem os estudos sobre creme de maconha em feridas?

Estudos em animais mostraram que modular esses receptores pode reforçar ainda mais o efeito analgésico, como aconteceu com o composto sintético URB937, que aumentou os níveis de anandamida e melhorou a resposta contra a dor.

As pesquisas também revelaram mudanças na expressão dos receptores CB₁ no local da lesão, o que sugere que eles participam do controle da inflamação e da resposta imune durante a cicatrização. Esse aumento coincide com a fase inflamatória inicial e continua durante a fase de proliferação celular, indicando que os receptores contribuem o tempo todo para a regeneração do tecido.

Os mecanismos exatos ainda não estão totalmente entendidos, mas está claro que a interação entre a anandamida e os receptores CB₁ tem papel importante na cicatrização.

Sala de cultivo de maconha no dia 73

Essas descobertas abrem portas na medicina regenerativa e na dermatologia, em que o creme de maconha e seus componentes podem ganhar espaço nos tratamentos de cicatrização.

Conforme a ciência avança nessa relação entre cannabis e cicatrização, a expectativa é que surjam terapias novas capazes de beneficiar milhões de pessoas no mundo todo.

Óleo de semente de cânhamo ajuda a cicatrizar?

O óleo de cannabis, principalmente o feito com semente de cânhamo, ficou popular como remédio natural para cicatrização por causa do excelente perfil de ácidos graxos essenciais ômega-3 e ômega-6, fundamentais para a saúde.

A semente de cânhamo não tem canabinoides em quantidade relevante, mas a composição equilibrada de nutrientes faz dela uma opção promissora para queimaduras, cortes e outras lesões externas.

Ainda faltam estudos formais sobre o uso tópico da semente de cânhamo em feridas, mas pesquisas preliminares sugerem que seus ácidos graxos essenciais podem ter papel importante na cura e na cicatrização. Além disso, um ensaio clínico com óleo de semente de cânhamo mostrou potencial para melhorar a recuperação de feridas nas mucosas depois de cirurgias de olho, nariz e garganta.

Tanto o óleo de semente de cânhamo quanto os preparados de cannabis ricos em canabinoides, como o CBD, podem ser opções para tratar lesões de pele. Além do CBD, outros fitocanabinoides presentes nesses preparados, como CBC, CBG e CBN, também são estudados pelo interesse terapêutico.

Cannabis medicinal: e as lesões internas?

Em lesões de tecidos ou órgãos internos, os canabinoides também mostram potencial terapêutico, mas ainda falta pesquisa para desenvolver terapias específicas. Como o sistema endocanabinoide é complexo, é crucial definir doses e proporções de canabinoides adequadas para evitar efeitos indesejados e aproveitar ao máximo os benefícios.

Com uma abordagem cuidadosa e baseada em evidência, o uso de canabinoides no tratamento de feridas pode trazer soluções novas para a saúde e o bem-estar das pessoas. Até lá, ferida séria é caso de médico, não de pomada caseira.