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Por que a maconha é proibida? A origem racista da proibição

Antes de virar crime, a maconha era remédio, tecido e papel. A proibição nasceu nos Estados Unidos do começo do século 20, e o alvo eram pessoas, não a planta.

POR Redação CosechaLibre4 MIN DE LEITURA

Por que a maconha é proibida?

A proibição da maconha não nasceu de nenhuma descoberta científica: ela começou nos Estados Unidos do início do século 20, como forma de controlar imigrantes mexicanos, e virou lei federal em 1937. Antes disso, a planta tinha milênios de bons serviços: os primeiros textos agrícolas chineses já citavam a cannabis como uma das plantas mais antigas e úteis conhecidas pelo ser humano. O cânhamo era usado no mundo inteiro para fazer papel, tecido e até comida. Muitas religiões usaram a maconha durante séculos nos seus rituais, e hoje a semente de cânhamo é vendida como superalimento.

A cannabis foi usada de mil jeitos ao longo da história, e hoje, mais do que nunca, está voltando a ser tratada como uma das plantas mais importantes do mundo. Então por que a maconha continua ilegal em tantos países?

Para entender como a gente chegou aqui, é preciso voltar aos Estados Unidos do começo dos anos 1900, logo depois da Revolução Mexicana. Naquela época, uma leva enorme de imigrantes mexicanos foi para estados como o Texas e a Louisiana. Os novos vizinhos levaram junto a língua, a cultura e os costumes da terra natal. Um desses costumes era o uso da cannabis, tanto como remédio quanto para relaxar ou por pura curtição.

Os imigrantes chamavam a planta de “marihuana”. Os americanos conheciam muito bem a “cannabis”, que estava em quase todas as tinturas e remédios vendidos na época, mas a palavra “marihuana” soava estrangeira. Quando a imprensa começou a explorar o medo que os americanos tinham dos novos moradores, passaram a circular histórias falsas sobre os “mexicanos baderneiros” e seus supostos costumes perigosos, entre eles fumar marihuana. O que o resto do país não sabia é que essa “marihuana” tão temida era a mesma planta que eles já conheciam e usavam de vários jeitos.

Demonizar a cannabis foi uma extensão de demonizar os imigrantes mexicanos. Para controlar e vigiar esses novos moradores, a cidade de El Paso, no Texas, copiou uma estratégia que San Francisco tinha usado décadas antes, quando proibiu o ópio para controlar os imigrantes chineses. A ideia era ter uma desculpa para revistar, prender e deportar imigrantes mexicanos.

Esse método de controlar pessoas controlando os costumes delas funcionou tão bem que virou estratégia nacional para manter certas populações sob vigilância e controle do governo.

Nas audiências sobre a lei da maconha nos anos 1930, foram feitas afirmações de que a planta deixava homens negros violentos, fazia com que assediassem mulheres brancas ou cometessem estupros. Essas imagens viraram o principal argumento do Marihuana Tax Act de 1937, a lei do imposto sobre a maconha que, na prática, proibiu o uso e a venda.

A lei foi declarada inconstitucional anos depois, mas foi substituída nos anos 1970 pela Lei de Substâncias Controladas (Controlled Substances Act), que criou listas para classificar as substâncias segundo o perigo e o potencial de dependência. A cannabis foi parar na categoria mais restritiva, a Lista I. 

Em 1996, a Califórnia virou o primeiro estado a aprovar o uso medicinal da maconha, encerrando 59 anos de reinado da planta como substância ilícita e sem valor médico. Antes de 1937, a cannabis tinha uma história de 5.000 anos como agente terapêutico em várias culturas. Com essa lei, a imagem de droga ilícita e perigosa começou a perder espaço para as qualidades medicinais e terapêuticas da planta. Foi uma batalha ganha entre as milhares que ainda faltam para a maconha ser vista como ela é de verdade: uma planta benéfica, cheia de propriedades e usos positivos.

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