Big data e maconha: o estudo português que cruzou 15 anos de internações por psicose
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Big data e maconha: o estudo português que cruzou 15 anos de internações por psicose

Como a análise de dados em massa está mudando a indústria da cannabis, e o que ela revelou sobre maconha e saúde mental em Portugal.

POR Redação CosechaLibre4 MIN DE LEITURA

O big data influencia a indústria da cannabis em várias frentes: otimiza cultivos e produção, personaliza produtos e, principalmente, alimenta a pesquisa científica com volumes enormes de dados. Um exemplo é um estudo português que cruzou 15 anos de internações em hospitais públicos para analisar a relação entre maconha e transtornos psicóticos. Com a legalização avançando, sobram dados sobre genéticas, efeitos terapêuticos, hábitos de consumo e preferências do mercado.

A análise de big data, capaz de coletar, analisar e aplicar dados em grande escala, é terreno fértil para a indústria da cannabis. Da otimização do cultivo e da produção à personalização da experiência do usuário e ao impulso à pesquisa científica, o big data está mudando a forma como a gente se relaciona com essa planta milenar.

Aqui a gente mostra como essa parceria entre maconha e big data está moldando o futuro do setor e, aos poucos, ajudando a entender o impacto da cannabis no organismo.

Maconha e transtornos psicóticos: o que o big data mostrou em Portugal

Num estudo pioneiro, um grupo de cientistas em Portugal investigou a fundo a possível ligação entre o uso de cannabis e o desenvolvimento de transtornos psicóticos. Com uma metodologia baseada em análise de big data, os pesquisadores examinaram dados de pacientes portugueses coletados entre 2000 e 2015, fornecidos pela Administração Central do Sistema de Saúde.

O estudo, observacional e retrospectivo, tinha como objetivo principal analisar a relação entre o uso de cannabis e a incidência de transtornos psicóticos em pacientes atendidos em hospitais públicos nesse período.

Para isso, foram avaliados vários fatores, como idade, sexo, diagnóstico, datas de internação e alta, tempo de permanência e custos de cada internação.

O que o estudo encontrou?

Os resultados, publicados no International Journal of Methods in Psychiatric Research (da editora Wiley), mostraram que o número de internações por transtornos psicóticos associadas ao uso de cannabis ficou 29,4 vezes maior ao longo dos 15 anos analisados.

Entre as internações analisadas, 12,2% dos pacientes eram usuários de cannabis, 8,4% tinham transtornos de humor e 5% apresentavam transtornos de personalidade.

Um dado-chave foi o salto nas internações por transtornos psicóticos associados ao uso de cannabis: de apenas 0,87% em 2000 para 10,60% em 2015. Esses números mostram a importância de continuar pesquisando a relação entre cannabis e saúde mental, uma informação valiosa para desenhar políticas de saúde pública e estratégias de prevenção e tratamento.

Quais são os fatores de risco para transtornos psicóticos?

Um ponto importante é o sexo: 89,85% dos casos registrados eram de pacientes homens. O dado bate com as estatísticas que apontam os homens como principais usuários de cannabis.

Quanto à idade, a análise mostrou que a idade média de uma crise psicótica é de cerca de 30 anos, embora cerca de 3,3% das internações tenham sido de pacientes menores de 18.

Vale frisar que esses achados reforçam pesquisas anteriores que sugerem que o uso de cannabis pode desencadear transtornos psicóticos.

Também é relevante saber que a prevalência estimada de uso de cannabis na população portuguesa, em qualquer momento da vida, é de 9,75%, abaixo da média europeia.

Ainda assim, o estudo observa uma tendência de crescimento do uso de cannabis em Portugal em comparação com outros países europeus, algo que merece uma análise mais cuidadosa.

O papel do big data na saúde pública

O estudo mostra o valor de usar tecnologia de big data na pesquisa sobre transtornos psicóticos: ele se apoiou na codificação clínica de bases de dados clínico-administrativas.

Vale lembrar que o uso dessas bases é prática comum nos hospitais públicos portugueses, onde a codificação de diagnósticos e procedimentos é feita por médicos bem treinados, o que dá confiabilidade aos dados analisados.

Também é interessante considerar o contexto social da maconha em Portugal, um dos primeiros países a descriminalizar o uso de drogas, em 2001: quem é pego com uma quantidade acima do equivalente a dez dias de consumo pode responder criminalmente.