Maconha e mudança climática: qual é a pegada de carbono do cultivo
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Maconha e mudança climática: qual é a pegada de carbono do cultivo

O indoor gasta energia como poucos cultivos, o tráfico desmata, e o cânhamo pode ajudar a capturar carbono. O que diz a ONU e o que dá para fazer.

POR Redação CosechaLibre6 MIN DE LEITURA

A indústria da maconha influencia a mudança climática principalmente pelo consumo de energia do cultivo indoor, que emite muito mais CO2 que o outdoor por causa da iluminação e da climatização. No mercado ilegal, as plantações também aparecem ligadas a desmatamento, escassez de água e perda de biodiversidade em vários países. Por outro lado, o cultivo legal e o cânhamo podem puxar práticas mais sustentáveis e até ajudar a capturar carbono. Num mundo em que a crise climática já mudou nossa relação com o ambiente, a pergunta é inevitável: qual é o impacto da maconha no aquecimento global e como o setor pode virar parte da solução?

A maconha, valorizada há séculos por seus usos terapêuticos e recreativos, cresceu na sombra da ilegalidade e do estigma. Com a legalização avançando em vários lugares do mundo, a indústria se expande, traz oportunidades e desafios e levanta perguntas sérias sobre sua sustentabilidade ambiental.

Por isso vale olhar como o cultivo de maconha contribui para as emissões de gases de efeito estufa, o esgotamento de recursos hídricos e outros impactos ambientais. E também como cultivadores e a indústria como um todo podem adotar práticas mais ecológicas para reduzir sua pegada de carbono.

Qual é o impacto ambiental das drogas, segundo a ONU

O Relatório Mundial sobre Drogas de 2022, do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), mostrou uma ligação pouco conhecida entre o consumo de drogas e a mudança climática. Num tema ainda pouco estudado, mas que vem ganhando atenção, até fumar maconha aparece como parte do problema ambiental global.

O relatório não fica só nos temas de sempre (saúde, crime e economia) e olha também para o impacto direto das drogas nos ecossistemas. Ele destaca que a destruição ambiental atinge sobretudo os países mais vulneráveis e que gestos individuais, como fumar um baseado ou cheirar cocaína, têm consequências que vão além da esfera pessoal.

E as emissões de CO2? Os números do relatório

Um dado impressionante do relatório é a diferença de emissões de CO2 entre a produção de diferentes drogas. A cocaína, por exemplo, gera 30 vezes mais CO2 por quilo do que o cacau em grão. Todo ano, a produção de cocaína joga na atmosfera 8,9 milhões de toneladas de CO2, o equivalente às emissões de quase dois milhões de carros.

A maconha também está na mira, principalmente o cultivo indoor, que emite bem mais do que as plantações ao ar livre. A necessidade de equipamentos de climatização e de iluminação de alto consumo pesa muito nessa conta.

O relatório ressalta que o impacto global da indústria das drogas não se compara ao de setores como a agricultura legal ou a indústria farmacêutica, mas o estrago é grande nas comunidades locais: desmatamento e contaminação da água, do solo e do ar, principalmente em países com menos recursos.

O estudo joga luz sobre um vínculo pouco explorado e mostra como nossas escolhas individuais podem ter efeito real no equilíbrio delicado do planeta.

Plantações ilegais, desmatamento e mudança climática

As plantações ilegais não têm consequências só para a saúde pública: elas também estão deixando uma marca pesada no meio ambiente, principalmente em desmatamento e mudança climática.

Um exemplo claro está na Colômbia, onde cerca de 50% do desmatamento nas regiões de Putumayo e Catatumbo está ligado diretamente ao plantio de coca, a matéria-prima da cocaína.

Em Catatumbo, a área plantada nas zonas de montanha cresceu 272% entre 2015 e 2020, sinal do avanço sem controle de um negócio que, para cada quilo de cocaína produzido, emite cerca de 590 quilos de dióxido de carbono, o mesmo que queimar 220 litros de combustível.

E não é só na Colômbia. Em outras regiões do mundo, como Marrocos e Nigéria, o cultivo de maconha teve um impacto pesado em ecossistemas que já eram frágeis. Além do desmatamento, foram registradas mais escassez de água e perda de biodiversidade, o que mostra como a produção de drogas e a degradação ambiental andam juntas.

Esses dados mostram que não basta olhar para os aspectos sociais e de saúde ligados às drogas: é preciso também enfrentar a destruição ambiental causada pela produção e distribuição de substâncias ilícitas. Proteger os ecossistemas e combater a mudança climática passa, também, por lidar com a produção sem controle de drogas no mundo todo.

Maconha e meio ambiente: o caminho sustentável

Na luta contra a mudança climática, a humanidade busca soluções inovadoras e sustentáveis. E, por incrível que pareça, o cultivo legal de maconha aparece como um ator inesperado, mas potencialmente positivo, nesse desafio.

Cânhamo: cultivo sustentável há séculos

O cânhamo, uma variedade da Cannabis sativa L., é cultivado de forma sustentável há séculos e vive um renascimento graças à popularidade dos produtos de CBD.

Com THC abaixo de 0,2%, o cânhamo não dá efeito psicoativo, o que o torna um recurso especialmente interessante do ponto de vista sustentável. É uma planta versátil que dá para aproveitar inteira, das flores ricas em CBD às sementes, fibras e caule, com pouco desperdício e muita utilidade.

Agricultura orgânica e regenerativa

O cultivo de maconha pode impulsionar práticas agrícolas mais sustentáveis, como a agricultura orgânica e a regenerativa. Adubos orgânicos, compostagem e rotação de culturas melhoram a qualidade do solo e a biodiversidade e reduzem as emissões de gases de efeito estufa ligadas aos fertilizantes químicos. Além disso, as raízes da cannabis absorvem metais pesados e outros contaminantes, o que ajuda a recuperar o solo.

Captura de dióxido de carbono

Como qualquer planta, a cannabis absorve grandes quantidades de dióxido de carbono (CO2) na fotossíntese. Isso dá ao cultivo o potencial de capturar e armazenar CO2, ajudando a compensar as emissões de gases de efeito estufa.

Algumas variedades, de crescimento rápido e alta capacidade de captura de carbono, poderiam ser ferramentas valiosas em programas de reflorestamento e recuperação de ecossistemas.

É um terreno ainda em exploração, mas as pesquisas indicam que o cultivo de cannabis pode abrir caminho para práticas mais sustentáveis e ajudar na luta contra a mudança climática, apontando para um futuro mais promissor para o planeta.