
Biotecnologia na cannabis: o futuro da genética saindo do laboratório
Da edição genética com CRISPR ao óleo com controle de cromatografia: os projetos argentinos que mostram para onde vai a indústria da cannabis.
A biotecnologia está virando o motor da indústria da cannabis: é ela que permite editar a genética da planta, clonar em laboratório com precisão e medir exatamente o que tem dentro de um óleo medicinal. Nas Américas, a pesquisa biotecnológica voltada para usos médicos da cannabis está se consolidando, com a meta de criar remédios apoiados em evidência científica, aproveitando o avanço da regulação e de olho numa avaliação decisiva da Organização Mundial da Saúde (OMS).
A grande questão é como biotecnologia e maconha podem se dar bem para chegar a uma genética de cannabis com toda a qualidade e os benefícios que os cultivadores procuram. Por isso, aqui a gente vai falar de como uma área pode turbinar a outra.
O que é biotecnologia?
Biotecnologia é um conjunto de técnicas que usa células vivas, cultura de tecidos ou moléculas tiradas de organismos, como as enzimas, para obter ou modificar produtos, melhorar plantas ou animais, ou desenvolver microrganismos para usos específicos.
Esses processos estão ligados a organismos vivos e a processos biológicos, como a fermentação de certos produtos, o uso tecnológico de enzimas e a produção de proteínas recombinantes. A biotecnologia se apoia no conhecimento de processos biológicos básicos, como a biologia molecular e a genética, e oferece ferramentas para o desenvolvimento sustentável na agricultura, na pesca, na silvicultura e na indústria de alimentos.

Quando ela se integra direito com outras tecnologias de produção de alimentos, produtos agrícolas e serviços, a biotecnologia vira uma ferramenta de peso para dar conta das necessidades de uma população que não para de crescer.
Como a biotecnologia muda a qualidade e a potência da cannabis?
O caso de Misiones, na Argentina
Misiones, província do nordeste argentino, está se firmando como líder na produção de óleo de cannabis para a saúde, graças a uma série de conquistas que garantem alta rastreabilidade do produto.
A província é conhecida pela infraestrutura e pelos equipamentos de última geração, com estudos contínuos enquanto avança no cultivo da planta. Hoje quem toca isso é a Biofábrica, que cultiva mais de 10 hectares ao ar livre (outdoor) e uma área parecida no esquema controlado, o indoor. Em dezembro de 2022 começaram as primeiras entregas de amostras de óleo para o tratamento de doenças específicas.
Como eles usam a biotecnologia tradicional para melhorar a cannabis sativa?
A parceria entre o Governo de Misiones, a Biofábrica e a MisioPharma avança firme para colocar a província como líder na produção de óleo de cannabis. Tanto que recentemente entrou em cena uma biotecnologia argentina inédita na região para controlar a qualidade do produto medicinal. É um cromatógrafo, aparelho que garante a produção de óleo de cannabis dentro de padrões e controles de qualidade máxima.
Samira Almirón, engenheira química do time de jovens profissionais da MisioPharma, explicou: “É o que há de mais moderno em tecnologia e serve para identificar, por meio da cromatografia líquida de alta eficiência, os componentes presentes desde a matéria-prima até o produto final (o óleo), e também para saber a concentração tanto do produto intermediário quanto do acabado”.
Cálice Biotech: a startup que quer melhorar a genética da cannabis
Como era de se esperar na indústria argentina, nesse cenário se destaca o projeto de dois biotecnólogos formados pela UNSAM (Universidade Nacional de San Martín), Ramiro Olivera e Esteban Hernando, junto com Alejandro Germe, economista especializado em finanças e estratégia de startups.
Olivera teve a ideia em 2017, quando a lei argentina para o cultivo de cannabis ainda era bem restritiva. Em 2019, Hernando entrou como assessor de desenvolvimento tecnológico. Em maio de 2021 nasceu a “Cálice Biotech”, e em fevereiro de 2022 ela recebeu a habilitação do Ministério da Saúde argentino para operar nas instalações da Escola de Ciência e Tecnologia (ECyT) da UNSAM.

A Cálice se apresenta como uma plataforma de biotecnologia vegetal focada no melhoramento genético da cannabis, com um modelo de negócio que vende soluções para empresas e bancos de sementes na Argentina e no mundo.
Na área medicinal, eles querem criar novas variedades de cannabis com aplicação médica para tratamentos em que os remédios convencionais não funcionam. Também exploram desenvolvimentos para uso industrial e horticultura. Os sócios conseguiram financiamento de investidores locais e estão negociando com um estrangeiro.
E as genéticas de cannabis na Argentina?
Segundo projeções da época, o mercado global de cannabis vinha crescendo forte, com um volume previsto de 42,7 bilhões de dólares para 2024. Na Argentina, a Secretaria de Produção do Ministério da Economia estima que em 2025 o setor vai chegar a vendas anuais de 500 milhões de dólares e gerar 10 mil empregos.
O limite legal de 0,3% de THC para plantas de cannabis sativa impõe restrições ao cultivo para uso industrial. A Cálice afirma ter desligado o gene da planta que produz THC usando engenharia genética em escala de laboratório, o que a colocaria entre as pioneiras do mundo nisso.
Desenvolver variedades de cannabis também exige bioinformática, fenômica e cultura de tecidos. A fenômica estuda o comportamento do cultivo medindo vários parâmetros, enquanto a cultura de tecidos, por micropropagação, é essencial para aplicar a edição genética e serve como técnica de produção e esterilização de plantas.
A micropropagação, uma técnica avançada de clonagem, gera plantas novas a partir de pedacinhos de tecido vegetal, usando reguladores de crescimento e meios de cultura especiais.
Argentina e transgenia: a biotecnologia tradicional
Hoje existe no mercado só uma variedade de cannabis desse tipo, que é transgênica e foi desenvolvida nos Estados Unidos. A transgenia consiste em inserir genes de fora no genoma da planta para dar a ela propriedades que ela não tinha.
Como essa intervenção cria um organismo novo, que não poderia ter surgido naturalmente, os testes regulatórios para liberar a venda são exaustivos: levam de 15 a 20 anos e exigem investimentos acima de 50 milhões de dólares.
A transgenia é uma técnica mais antiga que o CRISPR, a “tesoura molecular” de precisão, que encurta o tempo de desenvolvimento e os custos regulatórios porque não deixa marcas no genoma do organismo editado.
Só que, para desligar um gene específico, além de dominar o CRISPR, é preciso saber qual gene editar. No caso da cannabis, existem umas 40 mil possibilidades. É aí que a abordagem multidisciplinar da Cálice e de outras empresas faz diferença.
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