Cannabis para doença de Crohn e retocolite: o que dizem os estudos sobre as DII
SAÚDE

Cannabis para doença de Crohn e retocolite: o que dizem os estudos sobre as DII

Do sistema endocanabinoide no intestino ao ensaio clínico com THC: o que a pesquisa já mostra e o que ainda falta provar nas doenças inflamatórias intestinais.

POR Redação CosechaLibre7 MIN DE LEITURA

Há estudos que apontam que a cannabis medicinal pode aliviar sintomas das doenças inflamatórias intestinais (DII), como a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa, principalmente dor abdominal, cólicas e diarreia. As DII atingem milhões de pessoas no mundo, e a pesquisa ainda é pequena: os resultados são promissores, mas não substituem o tratamento médico.

O tratamento convencional das DII costuma envolver remédios imunossupressores e anti-inflamatórios, que podem ter efeitos colaterais importantes. Nesse cenário, a cannabis medicinal aparece como uma alternativa promissora para o manejo dos sintomas e é cada vez mais procurada por pacientes.

Sintomas e causas da doença inflamatória intestinal

A doença inflamatória intestinal (DII) atinge principalmente o trato digestivo: estômago, intestinos e cólon. Os sintomas mais comuns são diarreia crônica, dor abdominal e cólicas, perda de peso sem motivo, cansaço e febre. Mas nem todo mundo com diagnóstico de DII vai ter todos esses sintomas.

Sintomas comuns da DII:

  1. Diarreia crônica: um dos sintomas mais frequentes, que pode ser persistente e debilitante.
  2. Dor abdominal e cólicas: dor na barriga, que pode variar de intensidade.
  3. Perda de peso involuntária: causada pela má absorção de nutrientes e pela falta de apetite.
  4. Cansaço: uma sensação constante de fadiga que não melhora com descanso.
  5. Febre: em alguns casos, a DII pode causar febre.

Causas da DII:

A causa exata da DII é desconhecida, mas a maioria dos médicos concorda que a genética tem um papel importante. A dieta e o estilo de vida são decisivos para controlar os sintomas, mas ainda se discute se esses fatores contribuem diretamente para o surgimento da doença. Como a DII é uma condição inflamatória, uma disfunção do sistema imune também pode estar entre as causas.

Como a cannabis pode agir nas doenças inflamatórias intestinais

Há estudos que apontam que a cannabis, principalmente o THC e o CBD, tem propriedades anti-inflamatórias. Esses compostos interagem com o sistema endocanabinoide, que está muito presente nas células do sistema imune e ajuda a modular a imunidade. Alguns pesquisadores sugerem que a DII pode estar ligada a uma disfunção do sistema endocanabinoide, o que faria da cannabis uma possível opção de tratamento.

O interesse em usar cannabis na DII vem da capacidade de reduzir a inflamação e modular a resposta imune. Essa possibilidade é cada vez mais estudada, por causa dos resultados observados em algumas pesquisas e na prática clínica.

Canabinoides exógenos e endógenos na regulação da inflamação intestinal

O sistema endocanabinoide tem papel importante na regulação da inflamação intestinal, algo apontado em vários estudos. Tanto os canabinoides endógenos (produzidos pelo próprio corpo) quanto os exógenos (vindos de fora, como os da planta) podem influenciar a inflamação do estômago e dos intestinos, o que abre um caminho possível para o uso terapêutico dos canabinoides exógenos.

Receptores CB e colite: o estudo com camundongos

Num estudo de 2004, pesquisadores investigaram o papel dos receptores CB no tratamento de camundongos com colite induzida. Os resultados mostraram que os camundongos sem o receptor CB1 tinham uma inflamação mais grave.

Além disso, quando os camundongos recebiam um antagonista CB (que bloqueia o receptor), apresentavam sintomas parecidos com os da falta de receptor. Já os tratados com um agonista CB (que ativa o receptor) ficaram mais protegidos contra a colite induzida. Esses achados sugerem que reforçar a sinalização endocanabinoide pode ser benéfico durante a colite.

Estudo de 2014: inibidores de FAAH e colite em roedores

Em outro estudo com roedores, de 2014, os pesquisadores deram o inibidor de FAAH PF-3845 a camundongos com colite induzida por TNBS. O inibidor reduziu a colite e mostrou propriedades anti-inflamatórias, ligadas à mudança nos níveis de certos biolipídios.

Da mesma forma, os inibidores de MAGL também mostraram resultados positivos. A FAAH é a enzima que degrada a anandamida, e a MAGL é a que degrada o 2-AG, os dois canabinoides endógenos do sistema endocanabinoide.

Aumentar os endocanabinoides pode proteger o intestino?

A pesquisa sugere que aumentar os níveis de canabinoides endógenos pode proteger contra a colite ou frear o avanço dela. Há estudos que apontam que o CBD age como inibidor da FAAH, um exemplo de como canabinoides exógenos podem influenciar o sistema endocanabinoide em busca de um resultado terapêutico.

Conclusão

A literatura científica aponta uma relação consistente entre o sistema endocanabinoide e a inflamação gastrointestinal. Os estudos citados indicam que mexer nesse sistema com canabinoides endógenos e exógenos pode abrir novos caminhos para o tratamento das doenças inflamatórias intestinais, o que reforça o potencial terapêutico da cannabis nessa área.

Ensaios clínicos e pesquisas sobre cannabis e DII

A cannabis é usada como remédio há séculos, e um dos primeiros usos na Europa foi contra a dor de estômago ligada à cólera, graças ao trabalho do médico William Brooke O’Shaughnessy, que a levou da Índia.

Depois de quase 100 anos de proibição, a ciência moderna começa a alcançar as observações do passado, e há cada vez mais estudos que apontam a eficácia da cannabis em certos sintomas da doença inflamatória intestinal (DII).

Uso de cannabis por pacientes com DII

Num questionário com 292 pacientes com DII, quase 52% disseram ter usado cannabis em algum momento para controlar os sintomas. Desses, 16,4% usavam especificamente para sintomas médicos, principalmente dor abdominal. O dado mostra que uma parcela grande dos pacientes se automedica com cannabis para aliviar os sintomas.

Em outro estudo de coorte, com 313 pacientes com DII, 17,6% usavam cannabis para aliviar sintomas da doença.

Esses pacientes relataram melhora importante na dor abdominal (83,9%), nas cólicas (76,8%), na dor nas articulações (48,2%) e na diarreia (28,6%). Por outro lado, o estudo também viu um risco maior de precisar de cirurgia entre quem usou cannabis por seis meses ou mais.

Estudos observacionais e ensaios clínicos

A Associação Médica de Israel fez um estudo observacional com 30 pacientes com doença de Crohn, um tipo de DII. Desses, 21 tiveram melhora importante depois do tratamento com cannabis, e a necessidade de outros remédios também caiu bastante. Ao contrário do estudo de coorte, os pesquisadores viram menos cirurgias entre quem usava cannabis.

Em 2013, a revista Clinical Gastroenterology and Hepatology publicou um ensaio clínico randomizado e controlado por placebo, o primeiro do tipo sobre o efeito do THC em pacientes com doença de Crohn.

O estudo incluiu 21 pacientes que não tinham respondido a tratamentos convencionais, como corticoides, imunomoduladores ou anti-TNF-α (fator de necrose tumoral alfa). O grupo da cannabis fumava cigarros de cannabis duas vezes por dia, cada um com 115 mg de THC, enquanto o grupo placebo recebia flores de cannabis sem THC.

Resultados promissores

A remissão completa foi alcançada por 5 dos 11 participantes do grupo da cannabis, contra apenas 1 dos 10 do grupo placebo. Além disso, três pacientes do grupo da cannabis conseguiram diminuir a dependência de corticoides. Os resultados sugerem um potencial importante do THC na doença de Crohn, mas os pesquisadores ressaltam que são necessários estudos com grupos maiores de pacientes para confirmar os achados.

Conclusão

Há cada vez mais estudos que apontam que a cannabis pode ajudar em certos sintomas da DII. Mas, apesar dos resultados iniciais promissores, ainda falta pesquisa para entender todo o potencial terapêutico da cannabis nessas doenças e para definir protocolos de tratamento seguros e eficazes. Qualquer uso deve ser conversado com o médico que acompanha o caso.