
Maconha e transtornos alimentares: o que se sabe sobre anorexia, bulimia e compulsão
A erva é famosa por dar larica, mas a relação entre o sistema endocanabinoide e os transtornos alimentares é bem mais complexa que isso.
A maconha pode servir de apoio no tratamento de alguns transtornos alimentares, como a anorexia, porque mexe com o sistema endocanabinoide, que regula o apetite, mas não substitui o tratamento convencional e traz riscos, como o uso problemático. Ela é conhecida há milhares de anos por abrir o apetite e estimular o consumo de comida, mas a história não para por aí.
A cannabis também foi usada por muito tempo como apoio no tratamento da anorexia e de outros transtornos alimentares. Hoje, a pesquisa moderna está descobrindo que a ligação entre o sistema endocanabinoide e doenças como a anorexia é muito mais profunda do que se imaginava, embora a erva não substitua o tratamento convencional.
O que são transtornos alimentares?
Transtornos alimentares são quadros em que a pessoa usa o controle da comida para lidar com sentimentos e emoções. Os comportamentos pouco saudáveis podem ser comer demais, comer de menos ou viver obcecado com o peso ou o formato do corpo.
Vale deixar claro: cada transtorno alimentar pede um tratamento diferente, conforme o quadro e a história de cada paciente.
Tipos de transtornos alimentares
Compulsão alimentar:
É comer sem controle muito além do ponto de se sentir satisfeito e, muitas vezes, até passar mal. Os episódios de compulsão costumam vir seguidos de culpa e vergonha. O quadro pode levar a ganho de peso e obesidade.
Bulimia nervosa:
Esse quadro combina episódios de compulsão com purgação depois: vômito provocado, laxantes ou comportamentos compensatórios como jejum ou exercício em excesso. A pessoa pode estar um pouco abaixo do peso, no peso normal ou acima dele.
Anorexia nervosa:
Mesmo sendo menos comum que os outros dois, a anorexia tem a maior taxa de mortalidade entre todos os transtornos mentais. Quem tem anorexia se enxerga acima do peso mesmo estando perigosamente abaixo do normal. Isso leva a uma restrição alimentar severa e a um desgaste físico enorme.
Tratamentos para anorexia nervosa
O tratamento da anorexia nervosa costuma ser feito em equipe, com médicos, profissionais de saúde mental e nutricionistas, todos com experiência nos sintomas da anorexia e de outros transtornos alimentares. A terapia contínua e a educação nutricional são fundamentais para manter a recuperação.

O que levar em conta na hora do tratamento
- Um dos grandes desafios clínicos dos transtornos alimentares é que eles muitas vezes aparecem junto com um transtorno por uso de substâncias. Isso inclui o uso problemático de cannabis, que pode começar antes, ao mesmo tempo ou depois do transtorno alimentar.
- Outro desafio: pessoas com anorexia se sentem mais fortes ao resistir à vontade de comer. Por isso, o efeito da cannabis de abrir o apetite não necessariamente consegue vencer os problemas neurobiológicos que também fazem parte desse transtorno.
A cannabis pode ajudar a tratar transtornos alimentares?
A cannabis medicinal pode ser uma ferramenta útil para algumas pessoas, junto com terapias como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Existem três tipos principais de cannabis: sativa, indica e híbridas.
- As sativas: costumam dar energia e aquela brisa mais pra cima. Podem ser usadas para aliviar sintomas de depressão, cansaço e alterações de humor.
- As indicas: são mais sedativas, relaxam e dão um efeito no corpo todo, e são as mais usadas por pacientes com transtornos alimentares.
- As híbridas: costumam misturar as duas e, em tese, equilibram os efeitos positivos de cada uma.
Há poucos estudos que olham especificamente para o efeito do THC da maconha no apetite de quem tem um transtorno alimentar. Por outro lado, há vários estudos sobre o efeito da maconha e dos canabinoides na perda de apetite que atinge quem tem doenças debilitantes como câncer, aids ou hepatite.
Os resultados variam bastante de um estudo para outro, mas dá para afirmar que o sistema endocanabinoide tem um papel importante no controle do apetite e da alimentação. Essas pesquisas ajudam os cientistas a entender melhor como esse sistema regula processos biológicos como o apetite, a ingestão de comida e a saciedade.
Transtornos alimentares e o sistema endocanabinoide
O sistema endocanabinoide (SEC) é uma rede de receptores, enzimas e moléculas endocanabinoides que mantém a homeostase, o equilíbrio de várias funções do corpo. Os receptores CB1, presentes no sistema nervoso central, mandam um sinal de “calma” para neurônios hiperativos. Como esses receptores ficam nas regiões do cérebro que controlam a ingestão de comida, acredita-se que possa haver uma relação entre um SEC desregulado e o surgimento de um transtorno alimentar.
Pela forma como se ligam aos receptores CB1, os canabinoides ingeridos podem ajudar a reduzir a ansiedade dos pacientes e aumentar (ou diminuir, no caso das genéticas com muito CBD) a quantidade de comida que eles consomem.
Então, vale usar cannabis para tratar transtornos alimentares?
A real é que, como os transtornos alimentares podem vir junto com um transtorno por uso de substâncias, nem todo médico recomenda receitar maconha ou cannabis para esses quadros. Ainda assim, muitos afirmam que, com acompanhamento e um tratamento bem conduzido, ela pode trazer benefícios para os aspectos comportamentais e cognitivos dos pacientes.
Como em qualquer outro quadro, o importante é procurar um profissional e acompanhar de perto os remédios e as terapias usados no tratamento.

Efeitos do THC: a maconha pode causar transtornos alimentares em adolescentes?
Não há estudos mostrando que o consumo de maconha possa causar anorexia ou facilitar que quem tem o transtorno deixe de comer. Mas há indícios de que, em certas circunstâncias, a maconha pode tirar o apetite. Isso chama atenção porque o papel da erva como estimulante do apetite na medicina já foi bastante estudado.
Segundo os pesquisadores, esse efeito depende de níveis altos de CBD ou THCV, dois canabinoides que, de acordo com os estudos, tiram a fome. Uma pesquisa de uma empresa científica britânica mostrou que os dois canabinoides tinham efeito supressor do apetite quando dados a camundongos. Isso acontece porque os compostos agem como antagonista e agonista inverso dos receptores canabinoides e bloqueiam o efeito de abrir o apetite de agonistas como a anandamida ou o THC.
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