Maconha é anti-inflamatória? O que dizem os estudos, os pacientes e os especialistas
SAÚDE

Maconha é anti-inflamatória? O que dizem os estudos, os pacientes e os especialistas

Muito estudo em animal, pouco ensaio em humano e uma fila de pacientes relatando alívio. O retrato honesto da cannabis contra a inflamação.

POR Redação CosechaLibre6 MIN DE LEITURA

A maconha tem potencial anti-inflamatório: há estudos que apontam que canabinoides como o THC e o CBD, além de alguns terpenos, reduzem marcadores de inflamação, mas a maior parte dessa pesquisa ainda foi feita em animais e faltam ensaios clínicos em humanos. Usada há séculos por suas propriedades medicinais, a cannabis tem na inflamação uma das áreas de pesquisa mais promissoras.

Esses compostos interagem com o sistema endocanabinoide do corpo, que tem papel crucial na regulação da resposta imune e da inflamação. Por essa via, a cannabis é procurada para reduzir a inflamação, aliviar a dor e melhorar a qualidade de vida de pacientes com doenças inflamatórias crônicas, como artrite, retocolite ulcerativa e outras condições parecidas.

Plantas de maconha em cultivo indoor

Cannabis contra a inflamação: uma área de pesquisa promissora

O uso da maconha contra a inflamação é um campo de pesquisa amplo, que abrange várias condições médicas. Na última década, boa parte dos estudos sobre como a maconha age na inflamação foi feita em animais, o que mostra a necessidade de mais estudos e ensaios clínicos em humanos. Ainda assim, o que existe é animador e destaca principalmente o papel do CBD.

Os estudos sobre maconha medicinal e inflamação

Alívio da dor da artrite

Um artigo de 2018 publicado no Medical News Today tratou da pergunta se o óleo de CBD alivia a dor da artrite. O texto cita estudos em animais que mostraram efeitos anti-inflamatórios e analgésicos do CBD.

O CBD age sobre receptores do cérebro e do sistema imunológico, o que pode levar a uma redução da dor e da inflamação.

O potencial terapêutico do óleo de CBD

Uma pesquisa de 2011 publicada na revista Free Radical Biology and Medicine analisou o possível papel do CBD em várias condições ligadas à inflamação.

George W. Booz, professor do departamento de farmacologia e toxicologia do Centro Médico da Universidade do Mississippi, concluiu: “A inflamação e o estresse oxidativo estão intimamente envolvidos na origem de muitas doenças humanas.

Desatar essa relação pela via terapêutica tem sido um desafio, em parte porque a inflamação e o estresse oxidativo se ‘alimentam’ um do outro. Ainda assim, o CBD parece um ponto de partida promissor para o desenvolvimento de novos fármacos, por suas ações antioxidantes (relativamente modestas) e anti-inflamatórias nas células imunes”.

Revisão de 2016 sobre maconha medicinal

Outra notícia animadora sobre CBD e inflamação vem de uma revisão de literatura de 2016 publicada na BioMed Research International. Os pesquisadores apontaram o CBD como possível ferramenta para frear a disseminação e o crescimento de células cancerosas, mas frisaram que a pesquisa ainda é preliminar e que é preciso estudar muito mais.

Ensaio clínico na Universidade do Colorado

Um ensaio clínico da Universidade do Colorado, em Boulder, nos Estados Unidos, busca trazer parte dessa pesquisa que falta. Desde 2018, os pesquisadores medem como os níveis de inflamação mudam antes e depois do uso de cannabis, em relação aos níveis de THC e CBD no sangue.

Quando esta nota foi escrita, o ensaio ainda estava na fase inicial, recrutando participantes.

O que dizem os pacientes

Uso de cannabis medicinal por pacientes com lúpus

Articulações inflamadas, manchas na pele e cansaço prolongado estão entre os sintomas mais comuns do lúpus. O site Lupus Corner divulgou uma pesquisa com 781 pessoas com lúpus sobre o uso de cannabis para lidar com a doença autoimune.

Dos entrevistados, 36% disseram usar cannabis, seja fumando, aplicando óleo de CBD ou de outra forma, como em comestíveis. Entre os que usavam a cannabis diretamente para controlar os sintomas do lúpus, 83% disseram que recomendariam a outra pessoa com a doença.

Planta de maconha Gorilla Rainbow

E um dado chamativo: 96% dos entrevistados disseram que o médico nunca tinha conversado com eles sobre cannabis para o lúpus, sinal de que a maioria está indo atrás da maconha medicinal por conta própria.

Recuperação de cirurgias doloridas

Outros pacientes usam cannabis na recuperação de cirurgias doloridas. Catherine McCormick, de 53 anos, que fez uma cirurgia de prótese de joelho, largou as doses altas de ibuprofeno do pós-operatório e um coquetel de outros remédios.

Ela contou ao The New York Times, em 2018, como fumar cannabis melhorou a sua qualidade de vida: “Tenho mais energia. Consigo andar. Não sinto dor. Me sinto muito melhor”.

Parte do alívio relatado por esses pacientes pode vir das propriedades anti-inflamatórias dos terpenos da cannabis. Valenceno, cimeno, mentol e terpineol são alguns dos terpenos que mostraram possíveis efeitos anti-inflamatórios.

O que dizem os especialistas

Doença inflamatória intestinal (DII)

Alguns pesquisadores estão otimistas sobre como a cannabis poderia ajudar no manejo da doença inflamatória intestinal (DII), grupo que inclui a doença de Crohn e a retocolite. Mais especificamente, os endocanabinoides podem ser capazes de abrir uma via que desliga a resposta inflamatória do corpo.

O farmacologista Randy Mrsny, PhD, explicou num artigo de 2018 do Science Alert: “Precisamos deixar claro que, embora essa seja uma explicação plausível para o fato de usuários de maconha relatarem que a cannabis alivia os sintomas da DII, até agora só avaliamos isso em camundongos e não testamos experimentalmente em humanos. Ainda assim, esperamos que essas descobertas nos ajudem a desenvolver novas formas de tratar doenças intestinais em humanos”.

Pesquisa sobre CBD e alívio da dor com óleo de CBD

Num artigo de 2018 para a Harvard Health Publishing, o médico Peter Grinspoon comentou as pesquisas sobre CBD e alívio da dor em várias condições ligadas à inflamação.

“O CBD pode ser uma opção para tratar diferentes tipos de dor crônica”, escreveu. “Um estudo do European Journal of Pain mostrou, num modelo animal, que o CBD aplicado na pele poderia ajudar a reduzir a dor e a inflamação causadas pela artrite”.

“Outro estudo mostrou o mecanismo pelo qual o CBD inibe a dor inflamatória e a neuropática, dois dos tipos de dor crônica mais difíceis de tratar. São necessários mais estudos em humanos nessa área para confirmar o que os defensores do CBD dizem sobre o controle da dor”.

Por que ainda falta pesquisa sobre maconha medicinal e inflamação

O ponto em comum entre os estudos científicos e as opiniões dos especialistas é a falta de pesquisa. Mais ensaios clínicos, como o da Universidade do Colorado, em Boulder, são fundamentais para entender as possibilidades e os limites da maconha no tratamento da inflamação crônica.