Maconha e náusea da quimioterapia: o que os estudos dizem sobre THC, apetite e dor
SAÚDE

Maconha e náusea da quimioterapia: o que os estudos dizem sobre THC, apetite e dor

Dronabinol, nabilona e nabiximols têm resultado na náusea da quimio; no apetite e na dor do câncer, a evidência é bem mais fraca.

POR Redação CosechaLibre5 MIN DE LEITURA

Nos cuidados paliativos do câncer, o que os estudos mostram de mais sólido sobre a maconha é na náusea e no vômito da quimioterapia: o THC por via oral (dronabinol e nabilona) e o spray de extrato de cannabis (nabiximols) tiveram resultado em pacientes que não respondiam ao tratamento padrão. No apetite, o dronabinol não superou outros remédios, e na dor do câncer a evidência ainda é limitada: as gotas de CBD não substituem os medicamentos convencionais. Aqui vai o que as pesquisas dizem sobre cada sintoma, e onde a cannabis pode ajudar a aliviar a dor e melhorar a qualidade de vida.

Dos estudos às dicas práticas, a ideia é separar o que já tem resultado do que ainda é promessa, sem vender milagre.

Gotas de CBD ajudam na dor do câncer em adultos?

Nos cuidados paliativos para a dor do câncer, aparece sempre a pergunta: os medicamentos à base de cannabis funcionam? A mensagem principal da revisão é que eles não conseguiram aliviar a dor nos casos que não respondiam a remédios parecidos com a morfina.

Plantas de cannabis medicinal em sala de cultivo

Além disso, os estudos analisados não deixaram claro qual lugar esses medicamentos ocupam na escada analgésica da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a dor do câncer. Os autores destacam a falta de ensaios mais bem desenhados para avaliar direito o papel da cannabis no tratamento do câncer.

A dor do câncer é realidade para muita gente, e costuma aumentar conforme a doença avança. A OMS recomenda remédios parecidos com a morfina para dor moderada a intensa causada pelo câncer. Mesmo assim, de uma em cada seis a uma em cada 10 pessoas com dor oncológica não sentem alívio suficiente com eles.

Óleo de cannabis para dor: como ele é usado?

Para preencher essa lacuna, vários produtos à base de cannabis foram sugeridos como alternativa: a planta inalada ou ingerida por via oral, além de óleos, sprays e comprimidos com princípios ativos da cannabis.

Algumas pessoas relatam alívio da dor, mas os estudos atuais mostram que é preciso melhorar o desenho dos ensaios para medir de verdade a eficácia da cannabis na dor do câncer.

O que a revisão de estudos encontrou sobre óleo de cannabis e dor do câncer?

O objetivo principal da pesquisa foi ver se os medicamentos com cannabis aliviam a dor de pessoas com câncer e se trazem efeitos indesejados ou prejudiciais.

O método foi revisar ensaios clínicos que comparavam medicamentos com cannabis a outros tratamentos para a dor do câncer em adultos. Os resultados foram analisados e resumidos levando em conta a metodologia e o tamanho das amostras.

Foram encontrados 14 estudos, com 1.823 pessoas no total, feitos em vários países, a maioria na América do Norte. Alguns usaram doses de cannabis por períodos curtos; outros se estenderam por várias semanas.

Os principais resultados da revisão

  • O spray bucal com THC e CBD, de origem vegetal, não se mostrou mais eficaz que o placebo para reduzir a dor de pessoas com dor moderada a intensa por câncer, mesmo com tratamento com opioides. Os efeitos colaterais foram parecidos nos dois grupos.
  • Um canabinoide sintético que imita o THC não pareceu trazer benefício relevante na dor associada à quimioterapia ou à radioquimioterapia em pessoas com câncer de cabeça e pescoço e alguns tipos de câncer de pulmão.
  • Uma dose única de um canabinoide sintético que imita o THC poderia dar algum alívio, mas não mostrou diferença significativa em relação a uma dose parecida de um remédio semelhante à morfina.
  • O CBD não pareceu acrescentar nada na redução da dor de pessoas com câncer avançado em cuidados paliativos.
  • Um detalhe importante: nenhum estudo avaliou diretamente o uso da planta de cannabis medicinal nesse contexto, o que mostra que ainda falta pesquisa.

Náusea, apetite e dor: o que a cannabis faz nos efeitos colaterais do câncer

A cannabis e os canabinoides vêm sendo estudados como ferramentas para controlar os efeitos colaterais do câncer e do tratamento, além da dor. Veja o que as pesquisas mostram em cada caso.

Náusea e vômito da quimioterapia

  • O delta-9-THC por via oral, em medicamentos como dronabinol e nabilona, mostrou eficácia contra a náusea e o vômito causados pela quimioterapia em pacientes que não respondem ao tratamento padrão.
  • O nabiximols, um extrato de cannabis em spray bucal, também mostrou benefício no controle da náusea e do vômito da quimioterapia num ensaio clínico.

Já existem estudos sobre a cannabis inalada para esses sintomas, mas ainda falta pesquisa para confirmar o benefício.

Apetite no câncer avançado

Em estudos clínicos, o delta-9-THC (dronabinol) não foi mais eficaz que outros remédios para aumentar o apetite em pacientes com câncer avançado.
Até agora, não há estudos publicados sobre o efeito da cannabis inalada na perda de apetite em pacientes com câncer.

Frascos de vidro esterilizados para preparar óleo de cannabis

Vaporizar, inalar ou tomar por via oral: o que dizem os estudos sobre a dor

Segundo um estudo, vaporizar cannabis junto com opioides deu mais alívio a pacientes com dor crônica do que os opioides sozinhos.

Em ensaios controlados e randomizados, a cannabis inalada aliviou a dor neuropática (a dor que vem dos nervos) em pacientes com câncer.

Alguns estudos com extratos de cannabis sublinguais mostraram alívio da dor no câncer avançado, embora a revisão citada mais acima não tenha encontrado benefício claro.
O delta-9-THC por via oral aliviou a dor associada ao câncer em vários estudos clínicos.

Mesmo assim, a FDA (a agência de medicamentos dos Estados Unidos) não aprovou o dronabinol nem a nabilona para tratar a dor do câncer.

Num ensaio controlado e randomizado, produtos de cannabis não específicos não trouxeram mudança significativa nos sintomas nem nos efeitos adversos de pacientes com câncer em estágio avançado.

Apesar dos avanços e do interesse crescente na cannabis e nos canabinoides para pacientes com câncer, ainda são necessários mais estudos para entender por completo a eficácia e a segurança nesse contexto. Qualquer uso deve passar pela equipe médica.