Cannabis na ginecologia: endometriose, SOP, TPM e fertilidade
SAÚDE

Cannabis na ginecologia: endometriose, SOP, TPM e fertilidade

Da história antiga aos estudos de hoje, com a visão da ginecologista argentina Silvina Vulcano: onde a planta pode ajudar a saúde ginecológica e onde ainda falta evidência.

POR Redação CosechaLibre6 MIN DE LEITURA

Na ginecologia, a cannabis medicinal é procurada principalmente para aliviar cólica menstrual, dor da endometriose, vulvodinia e sintomas da menopausa, e há estudos que apontam benefícios, embora a pesquisa ainda esteja no começo. Usada há séculos em várias culturas para aliviar dores e tratar diferentes problemas, a planta vem ganhando espaço pelo potencial de melhorar a saúde da mulher.

Do alívio da cólica e do manejo da endometriose ao tratamento da vulvodinia e dos sintomas da menopausa, a cannabis aparece como uma alternativa interessante aos tratamentos convencionais.

Para que serve o óleo de cannabis na ginecologia?

A medicina moderna já viu a cannabis medicinal tomar vários caminhos terapêuticos. Da dor crônica, esclerose múltipla, Alzheimer e glaucoma à epilepsia, ao HIV e à esclerose lateral amiotrófica (ELA), a planta tem se mostrado uma ferramenta poderosa.

Mais recentemente, pesquisas e aplicações mais aprofundadas do CBD apontam resultados promissores em doenças e incômodos ginecológicos, sobretudo em casos em que a medicina convencional não funciona.

A história antiga da maconha medicinal nas doenças do sistema reprodutor feminino

Historicamente, várias civilizações conheciam bem os efeitos da cannabis e o seu potencial para aliviar os problemas do sistema reprodutor feminino. A planta era usada para tratar distúrbios menstruais, reduzir a dor e facilitar o parto, além de tratar tumores uterinos e gonorreia.

Óleos de cânhamo eram aplicados na pele para reduzir a dor do parto, e as flores de cannabis eram queimadas para inalar a fumaça terapêutica. Essas práticas foram registradas em várias culturas, da China às civilizações suméria e egípcia, e depois no Oriente Médio e no mundo árabe.

No início da Europa medieval, o uso da cannabis na medicina continuou e se ampliou para a dor do inchaço nos seios e os incômodos uterinos.

A cannabis na medicina herbal antiga

A maconha foi muito usada na medicina herbal da Antiguidade e costumava ser combinada com outras ervas ou com ingredientes não vegetais, como o mel, para chegar ao efeito desejado.

As culturas antigas valorizavam a cannabis no tratamento de problemas do sistema reprodutor feminino. Mesmo sem saber explicar como, observavam efeitos benéficos em distúrbios do útero, na menopausa e na prevenção de abortos espontâneos.

Os avanços da cannabis na ginecologia

Nos séculos XVIII e XIX, a medicina deu um salto. Com mais conhecimento de anatomia, os médicos começaram a pesquisar e descrever em detalhe como a cannabis podia ajudar na dismenorreia (cólica menstrual), na menorragia (sangramento menstrual intenso) e nas náuseas e vômitos fortes da gravidez.

O que dizem os ensaios clínicos sobre o óleo de cannabis em problemas ginecológicos

Com o interesse científico e farmacêutico crescendo em torno das aplicações e dos mecanismos da cannabis, foram feitos ensaios pré-clínicos e clínicos para medir e comparar os resultados. Esses estudos procuram avaliar até que ponto dá para confiar nos produtos de cannabis para ajudar nos problemas do sistema reprodutor feminino, aumentando a informação disponível e melhorando a terapia.

O CBD no tratamento da endometriose

Muitas vezes os tratamentos usados na ginecologia não dão o efeito esperado, têm efeitos colaterais ou aliviam por muito pouco tempo. A cannabis aparece como uma opção promissora, principalmente no caso da endometriose.

Há estudos que apontam que o CBD não só ajuda nos sintomas, como a dor pélvica, mas também inibe, em laboratório, a decidualização das células do estroma endometrial. Como cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva têm endometriose, essa descoberta pode ter um impacto grande no tratamento de 200 milhões de mulheres no mundo.

Como a cannabis é usada hoje na ginecologia

A cannabis também vem sendo usada em pequena escala para outras condições dolorosas, como a dor pélvica e a menopausa. Mas essas ainda são as primeiras tentativas de repetir, com respaldo científico, o que as culturas antigas faziam sem ele.

Estamos só no começo das aplicações ginecológicas da cannabis, e ainda falta muita pesquisa e muito ensaio clínico. Passo a passo, começamos a ter um impacto efetivo e responsável na saúde das mulheres no mundo todo.

Cannabis e saúde ginecológica: uma abordagem integral

Silvina Vulcano: especialista em cannabis e saúde ginecológica

Silvina Vulcano é uma médica tocoginecologista argentina formada pela Universidade de Buenos Aires (UBA). Com formação em epidemiologia, gestão e políticas de saúde e segurança do paciente, ela dedicou a carreira ao estudo do uso da cannabis em mulheres e pessoas que menstruam.

Ela fez o diploma em Vinculação em Cannabis e seus Usos Medicinais (2021) pela Universidade Nacional Arturo Jauretche e a pós-graduação “Abordagem Integral da Planta de Cannabis para a Saúde” pela Universidade Nacional de Rosario (UNR), ambas na Argentina.

É a especialista chamada pelo Colégio de Médicos para capacitar colegas no uso terapêutico da maconha. Segundo Vulcano, “a cannabis oferece respostas não só a patologias específicas, mas também a situações cotidianas de desconforto e incapacidade.”

Endometriose e cannabis: alívio da dor

A endometriose, que atinge 1 em cada 10 mulheres ou pessoas que menstruam, acontece quando o tecido do endométrio cresce fora do útero e pode causar dor intensa por mecanismos nociceptivos, inflamatórios e neuropáticos.

Silvina Vulcano explica que o sistema endocanabinoide, que inclui moléculas como a anandamida e o 2-AG, tem receptores no coração, no baço, nas glândulas endócrinas e no sistema reprodutor, o que permite modular a dor da endometriose com derivados da cannabis. As pesquisas seguem investigando se um desequilíbrio no sistema endocanabinoide pode estar ligado a uma frequência maior dessa doença.

Síndrome dos ovários policísticos (SOP) e cannabis

A síndrome dos ovários policísticos atinge de 5% a 15% das mulheres em idade reprodutiva. A cannabis pode ser útil no manejo da resistência à insulina e da obesidade, comuns nesse quadro.

Vulcano destaca que o sistema endocanabinoide tem papel central na regulação do apetite, da ingestão de alimentos e do metabolismo da glicose, o que poderia ajudar no manejo da SOP.

TPM e transtorno disfórico pré-menstrual (TDPM)

A síndrome pré-menstrual, a famosa TPM, atinge três em cada quatro pessoas que menstruam, com sintomas como irritabilidade, tensão, mudanças de humor, sensibilidade nos seios e inchaço.

Entre 5% e 8% das pessoas que menstruam têm uma forma mais grave, o transtorno disfórico pré-menstrual (TDPM), que pode trazer depressão, ansiedade, irritabilidade, insônia e outros sintomas físicos e emocionais intensos. Segundo Vulcano, “a cannabis é um tratamento alternativo não hormonal que poderia ter menos efeitos colaterais negativos do que os medicamentos disponíveis hoje.”

A história mostra que até o médico pessoal da rainha Vitória, Sir John Russell Reynolds, receitou cannabis para aliviar os sintomas menstruais da monarca.

Maconha atrapalha a fertilidade? O que dizem os estudos

Existe evidência de que o uso de cannabis pode alterar a ovulação e outras etapas do processo reprodutivo, mas os estudos em grande escala não mostraram uma queda significativa da fertilidade em mulheres que usam cannabis.

A Pesquisa Nacional de Crescimento Familiar dos Estados Unidos não encontrou relação entre o uso de cannabis e o tempo até engravidar. Vulcano ressalta que é fundamental considerar fatores como atividade física, uso diário de cannabis e estresse para entender o impacto da planta no ciclo menstrual e na fertilidade.

Silvina Vulcano conclui: “Quando conseguimos organizar esses fatores, o uso da cannabis pode deixar de ser estigmatizado e começar a ser regulado de forma efetiva.”